Como não poderia deixar de ser, uma das atividades mais tradicionais do mundo está presente em diversas expressões da cultura popular. Na música brasileira, não faltam referências a essa atividade e a seus profissionais. São canções recheadas de críticas às relações de trabalho, são homenagens aos imigrantes dos sertões que vêm ajudar a construir as grandes cidades do país. O Blog Construct fez uma seleção de 5 músicas brasileiras inspiradas na construção civil.

Confira:

1. Construção, de Chico Buarque (1971)

A canção Construção é uma das mais famosas do compositor Chico Buarque, lançada em 1971, em plena ditadura militar no Brasil. A composição carrega reflexões e críticas ao modelo de trabalho dentro do sistema capitalista. Belíssima em sentido e forma, a música é construída em versos dodecassílabos, sempre terminados em proparoxítonas. Os arranjos são do maestro Rogério Duprat, em uma melodia repetitiva, desenvolvida inicialmente sobre dois acordes, uma metáfora da rotina monótona do personagem retratado no poema. Vale a pena dedicar tempo apreciando com cuidado uma das letras mais lindas da música popular brasileira:

Construção

Compositor: Chico Buarque
Principal Intérprete: Chico Buarque
Álbum: Construção
Lançamento: 1971

Está gostando deste artigo?

Assine nossa newsletter e receba conteúdos como esse direto no seu e-mail

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado


Você também pode se interessar: Os 5 documentários mais legais do Megaconstruções, do Discovery Channel

2. Pedro Pedreiro, de Chico Buarque (1965)

Pedro Pedreiro, de Chico Buarque, foi composta em 1965 e lançada em 1968 no disco Bom Tempo. Foi regravada pelo próprio Chico em italiano e lançada no álbum Chico Buarque de Hollanda na Itália. A música fala sobre a rotina de Pedro, pedreiro. Sua vida é descrita como uma espera sem fim. Esperando é a palavra mais recorrente, repetida 36 vezes na composição. Pedro espera pelo transporte público, espera pelo aumento, espera pelo carnaval e a sorte no bilhete da federal…

Pedro Pedreiro

Compositor: Chico Buarque
Principal Intérprete: Chico Buarque
Álbum: Bom Tempo
Lançamento: 1968

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro fica assim pensando
Assim pensando o tempo passa
E a gente vai ficando pra trás
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Desde o ano passado
Para o mês que vem

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro espera o carnaval
E a sorte grande do bilhete pela federal
Todo mês
Esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Para o mês que vem
Esperando a festa
Esperando a sorte
E a mulher de Pedro
Está esperando um filho
Pra esperar também

Pedro pedreiro penseiro esperando o trem
Manhã, parece, carece de esperar também
Para o bem de quem tem bem
De quem não tem vintém
Pedro pedreiro esta esperando a morte
Ou esperando o dia de voltar pro norte
Pedro não sabe mas talvez no fundo
Espera alguma coisa coisa mais linda que o mundo
Maior do que o mar
Mas pra que sonhar
Se dá o desespero de esperar demais
Pedro pedreiro quer voltar atrás
Quer ser pedreiro pobre e nada mais
Sem ficar esperando, esperando, esperando
Esperando o sol
Esperando o trem
Esperando o aumento
Para o mês que vem
Esperando um filho
Pra esperar também
Esperando a festa
Esperando a sorte
Esperando a morte
Esperando o norte
Esperando o dia de esperar ninguém
Esperando enfim nada mais além
Da esperança aflita
Bendita, infinita
Do apito do trem

Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando
Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem
Que já vem

3. Cidadão, de Zé Ramalho (1992)

O eu lírico da música Cidadão é um humilde imigrante do Norte do Brasil, que se ressente da hostilidade enfrentada na cidade grande, onde ajudou a erguer diversas obras. Composta por Lucio Barbosa, a música tem como principal intérprete o cantor Zé Ramalho. Como se não se incluísse na classificação, o personagem se refere a figuras opressoras dessa cidade grande como cidadãos. Um cidadão desconfia que ele seja bandido, por estar há muito tempo admirando um edifício (que ele ajudou a levantar), outro cidadão diz que sua filha não pode estudar no colégio que ele também ajudou a construir. Um dos trechos mais bonitos é o que nos conta de onde ele vem: Por que é que eu deixei o norte?/ Eu me pus a me dizer/ Lá a seca castigava/ Mas o pouco que eu plantava/ Tinha direito a comer.

Cidadão

Compositor: Lucio Barbosa
Principal Intérprete: Zé Ramalho
Álbum: Frevoador
Lançamento: 1992

Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Eram quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar

Hoje depois dele pronto
Olho pra cima e fico tonto
Mas me vem um cidadão
E me diz desconfiado
“Tu tá aí admirado?
Ou tá querendo roubar?”

Meu domingo tá perdido
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber
E pra aumentar meu tédio
Eu nem posso olhar pro prédio
Que eu ajudei a fazer

Tá vendo aquele colégio, moço?
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento
Fiz a massa, pus cimento
Ajudei a rebocar

Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente
“Pai, vou me matricular”
Mas me diz um cidadão
“Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar”

Essa dor doeu mais forte
Por que é que eu deixei o norte?
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava
Mas o pouco que eu plantava
Tinha direito a comer

Tá vendo aquela igreja, moço?
Onde o padre diz amém
Pus o sino e o badalo
Enchi minha mão de calo
Lá eu trabalhei também

Lá foi que valeu a pena
Tem quermesse, tem novena
E o padre me deixa entrar
Foi lá que Cristo me disse
“Rapaz deixe de tolice
Não se deixe amedrontar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar

Hoje o homem criou asa
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar
Fui eu quem criou a terra
Enchi o rio, fiz a serra
Não deixei nada faltar
Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Eu também não posso entrar”

Leia também: 7 séries que todo engenheiro precisa assistir

4. Construção Civil, Capital Inicial (2005)

Entre 1978 e 1981, um grupo de jovens de Brasília criaram uma banda chamada Aborto Elétrico, que fez relativo sucesso em uma época em que o rock da capital federal florescia. Depois de um desentendimento no grupo, formado por Renato Russo (baixo e vocal), André Pretorius (guitarra) e Fê Lemos (bateria), a banda se desfez sem nunca ter gravado um disco. Com o fim do Aborto Elétrico, duas novas bandas surgiram: Legião Urbana e Capital Inicial. Os novos grupos dividiram as canções do Aborto Elétrico entre si. Uma das músicas, Construção Civil, composta por Renato Russo e Flavio Lemos, só ganhou sua primeira gravação em 2005, no álbum Especial Aborto Elétrico, do Capital Inicial.

Na música Construção Civil, composta no fim dos anos 80, um jovem reflete sobre o futuro. Conta que tem um primo que trabalha na construção civil, diz que é feliz, mas o jovem parece não acreditar quando o primo diz que é feliz. Fica desconfiado das chatices da vida de adulto, como aluguel e outras responsabilidades. Os versos sugerem que o primo, impaciente, se esquiva das reflexões e inquisições do jovem curioso.

Construção Civil

Compositores: Renato Russo e Flavio Lemos
Principal Intérprete: Capital Inicial
Álbum: Especial Aborto Elétrico
Lançamento: 2005

O que você vai ser
Quando você crescer?
Nas fotografias
O que você vai ver?
O tempo passa
E você vê
Que existem coisas
Que você nunca
Imaginou que existissem

Eu tenho um primo que trabalha na construção civil
Me conta coisas, diz que eu tenho que esperar
Entre uma cerveja e outra se lembra do aluguel
E então me explica como é feliz

Eu tento ver nos olhos
Se ele fala a verdade
Mas ele se esquiva
E diz que é só cansaço
Cê ainda tem muito pra viver
Como vai a escola?
E sua turma?
O que é que vocês fazem?
Como é a sua vida?

Eu tenho um primo que trabalha na construção civil
Me conta coisas, diz que eu tenho que esperar
Entre uma cerveja e outra se lembra do aluguel
E então me explica como é feliz

Eu tenho um primo que trabalha na construção civil
É tão seguro trabalhar na construção civil
Senso de responsabilidade na construção civil
Pare de pensar na vida e vá trabalhar
Na construção civil

5. Canteiro de obra, de Wilson Moreira e Sérgio Fonseca (2013)

O sambista carioca Wilson Moreira também tem uma canção que homenageia seu personagem mais cantado nas músicas brasileiras sobre construção civil: o trabalhador imigrante do sertão para as cidades grandes.

Canteiro de Obra

Compositores: Wilson Moreira e Sérgio Fonseca
Principal Intérprete: Wilson Moreira
Álbum: Peso na Balança
Lançamento: 2013

Veio de longe lá do fim da trilha
Lá das quebradas secas do sertão
Matar o corpo no sul maravilha
Que a alma já morreu na arribação

Trouxe a esperança
Que não se envergonha
De não ter tempo de esperar em vão
Pois tudo aquilo que o seu peito sonha
Se concretiza em outra construção

O peão entrou na obra, o peão
O peão entrou na obra
Roda peão, bambeia peão
Roda peão na mão do patrão

O peão só pega a sobra, o peão
O peão só pega a sobra
Roda peão, bambeia peão
Roda peão na mão do patrão

Guarda na mente
Na lembrança esperta
Tanto repente, tanta oração
Dessas mentiras uma coisa é certa
Quanto mais reza, mais assombração

Só pensa um dia em voltar pro norte
Virando a sorte que Deus lhe deu
Quem sabe um dia até mesmo a morte
Seja maior do que o destino seu

O peão entrou na obra, o peão
O peão entrou na obra
Roda peão, bambeia peão
Roda peão na mão do patrão

O peão só pega a sobra, o peão
O peão só pega a sobra
Roda peão, bambeia peão
Roda peão na mão do patrão

Conhece mais músicas brasileiras inspiradas na construção civil? Compartilhe com a gente nos comentários!

Confira também: 7 filmes para engenheiros e apaixonados por construção